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A vida não tinha sido nada
fácil. Cresceu assim, dividindo as dificuldades com os
outros filhos da casa,
mas tinha em mente mudar tudo isso, tão logo fosse dona do
próprio nariz.
A adolescência
chegou desenhando traços e formas perfeitas na face e no
corpo
daquela menina, e não tardou a chamar a
atenção dos mais moços da
vizinhança.
Ela conhecia o seu poder de sedução e sabia muito
bem como usá-lo. A cor
morena, olhos insinuantes faziam de todos presas fácies
entre aqueles seus
pequenos dedos suaves e delicados. Quem sabe conseguisse um namorado de
posses,
que lhe fizesse virar as costas para as dificuldades que haviam marcado
toda a
sua vida, fruto da pobreza e um pai nem sempre presente. Pensava em
trabalhar,
ganhar a vida; rodar o mundo a procura da sua felicidade, onde quer que
ela
tivesse feito morada.
Casar, ter um lar, filhos,
uma família estruturada e condições
melhores de
viver. Talvez encontrasse, mesmo que pra isso fosse preciso abri
mão de um
casamento por amor.
Namorados? Teve alguns, mas
nem sempre tinham o perfil daqueles seus sonhos,
que ela havia moldado para o futuro; até que finalmente
entrou na sua vida
alguém que parecia representar tudo isso. Não
pensou duas vezes! Mesmo não
tendo certeza dos sentimentos que os ligavam; casou. Caso
não fosse amor,
poderia vir com o tempo, com a convivência do dia a dia.
Afinal, ele era um
homem de caráter, um obstinado pela lida e declarara ter por
ela um grande
amor.
Nem bem havia passado a
adolescência vieram os dois filhos. A
maternidade havia lhe marcado profundamente, e por algum tempo
acreditou que
havia esquecido os sonhos e planos do passado; e, se não
era, chegou a sentir
pelo marido algo muito parecido com amor. Tentou, fez de tudo pra que
isso
acontecesse. Já agora com mais de trinta anos, achara que
já era chegada à hora
de uma rotina sem grandes tempestades; muito menos dilúvios
inesperados.
Sete anos adiante, tudo
parecia ter voltado. Filhos quase criados e estudando,
trançando cada um seu próprio caminho e ela
novamente sentiu-se sozinha.
Queria voltar a trabalhar,
estudar; retomar aquele pedaço de tempo que não
viveu, que não sentiu; ouvir novamente o pulsar das batidas
do seu coração, ter
mais do que uma vida estável, uma casa pra cuidar. Queria
redescobrir o caminho
da felicidade deixado no passado, em nome do presente, que ela
não desejava que
tivesse que viver no seu futuro.
Aos 37 anos ainda conserva
a o mesmo corpo insinuante e a mesma face suave
daqueles primeiros meses da transformação de
menina para mulher. Mais do que
isso: os anos e a experiência somaram a ela a capacidade de
persuadir, de
conseguir tudo aquilo que desejasse, sem que para isso tivesse que
relutar num
esforço maior.
O trabalho veio logo em
seguida, e trouxe com ele um pouco da liberdade do lado
de fora dos muros da própria casa e de si mesma. Vieram as
novas amizades e com
elas acabou descobrindo que ainda era uma mulher desejada e assediada,
como
caça em terra que não cresce, nem se fortalece
qualquer grão.
A aliança no
dedo esquerdo lhe parecia um peso difícil de carregar; como
gume
de faca afiada, pronta para cortar as asas de qualquer sonho de
liberdade, em
que ousasse se lançar. Mesmo assim, não estava
disposta a lutar contra a
própria índole, a mesma que sussurrava no seu
ouvido, que ainda poderia ser
muito feliz.
Aconteceu de o conhecer em
um dia, que tudo indicava não a levaria a nada
especial, mas nascia ali uma relação que
escreveria os capítulos mais importantes
do livro da sua vida. Como no casamento, no primeiro momento achou que
o
sentimento era amor. Havia nas palavras dele uma magia que ela
acreditava ter
perdido com a adolescência e via agora ressurgir em forma de
sonhos. De alguma
forma ele a fizera voltar a acreditar, mas não tardou a
descobrir que era de
fato o mais intenso sentimento de amizade, que jamais sentira por
qualquer
outra pessoa. Ele, por outro lado a amava como mulher, com aquela mesma
intensidade sua, e jurou que jamais em sua vida existiria qualquer
outra.
Amizade e amor.
Tão próximos no significado, mas seria
possível coexistirem
pacificamente entre um homem e uma mulher? Nesse caso não
foi! Depois de muitos
desencontros, de tentativas de entendimento; separaram-se, e tudo
indicava que
seria definitivamente.
Ela não havia
encontrado o amor, e até mesmo a amizade lhe havia sido
recusada.
Tentou, lhe escreveu inúmeras vezes por uma só
palavra, ligou tantas outras,
mas nenhuma resposta teria desde então.
O marido bem que notou os
seus pensamentos distantes e fez de tudo pra que ela
voltasse a ser a mãe dedicada e dona de casa que sempre
fora. Bastasse um só
pedido seu; fosse qual fosse, e ele estava sempre pronto para fazer
acontecer.
Mas apesar de tanto esforço isso não lhe trazia
amor, tampouco felicidade, que
ela queria a qualquer preço conseguir.
Foi inevitável
se envolver com outros homens. Teve sim momentos felizes, e ela
já começava a acreditar que felicidade se
resumisse apenas nisso.
Vinte anos se passaram e o
futuro finalmente havia chegado. Na sua bagagem não
trouxera consigo nenhuma felicidade, que durasse além de
muitos dias.
Dos homens que conheceu
sequer lembrava mais os nomes; o jovem das palavras
mágicas parecia agora boas lembranças do passado.
Mas a aliança no seu dedo não
a deixava esquecer, que ainda existia um marido, e que talvez agora
só lhe
restasse descobrir com ele a felicidade, que sempre parecia lhe escapar
por
entre os dedos.
Como em tantos outros anos,
mais uma primavera chegou e trouxe com ela um
reencontro inesperado do passado. Mesmo tantos anos depois se
reconheceram pelo
olhar e ela sentou-se ao seu lado, num tronco de árvore
esquecido na calçada.
Estava ali diante dela
aquele homem da magia com as palavras, que um dia lhe jurara
amor eterno, lhe fizera voltar a acreditar e sonhar. Entre os
dois e o
espaço de
tempo, muitas experiências vividas, que agora se redescobriam
num olhar.
Dalí
só saíram juntos,
instintivamente de mãos dadas. Vinte anos depois, por
amor ele lhe permitiu a amizade e ela pela grande amizade lhe permitira
aquele
grande amor...
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