... Quando entrei naquela casa; uma
velha foto amarelada na parede foi à primeira coisa que
chamou minha atenção.
“Seu
Geraldinho Relojoeiro” , como é conhecido na
pequena cidade mineira de Carvalhos, logo notou a minha curiosidade, e
apressou-se em contar-me a história daquela velha foto:
No dia
29 de setembro de 1894, exatamente há 115 anos passados,
nascia no interior de Minas Gerais o menino Antonio Miguel.
Até
os seus doze anos de idade, levou vida dura na lida com as coisas do
campo.
Tinha
pés descalços sobre aquele solo, mas sonhos na
mente, que voavam alto em outras direções.
Dois
meses frequentando a escola e já conseguia ler, escrever e
contar. Considerou então, que era o suficiente pra sair de
casa e conquistar o mundo.
“Aqui
eu não fico!”, repetia ele sempre.
Trouxinha
nas costas e pés na estrada caminhou a procura dos seus
sonhos.
Durante
seis longos anos, trabalhou em lugares diferentes, até
finalmente se fixar na cidade mineira de Caxambu.
Seu
esforço e coragem de trabalho foram logo reconhecidos, e em
pouco tempo; aos 22 anos de idade, casava-se com a jovem
Adília de 19 anos; sobrinha de um dos homens mais poderosos
e respeitados da região.
Anos
mais tarde, tornava-se dono do Hotel – Cassino
Bragança; um marco histórico naquela cidade.
Naqueles
anos, o jogo era uma atividade econômica como outra qualquer,
que trazia os turistas e os sonhos das pessoas pelo ganho
mágico e riqueza fácil da noite para o dia.
Antonio
Miguel e Dona Adília tiveram nove filhos. Os
negócios iam bem, a ponto de inaugurarem uma filial do
hotel, com o mesmo nome, na capital do Rio de Janeiro.
Linhas
de ônibus, propriedades na capital paulista somaram-se ao
império, que então se construía.
Com o
passar dos anos; o mesmo jogo, que fora alicerce daquela fortuna;
tornou-se desmanche da mesma.
Dividas
se acumulavam, até que só restou a sede do hotel
Bragança em Caxambu.
Antonio
Miguel morreu em 1965, aos 71 anos de idade; deixando nas
mãos do filho caçula a tarefa de reerguer e dar
continuidade às atividades do histórico hotel
Bragança.
“Seu
Antonio” ("Toninho"), filho caçula de
Antonio Miguel, hoje com 78 anos de idade, teve 14 filhos, e estes
tantos outros. Seguiam-se as gerações com seus
sucessos e fracassos, alegrias e tristezas, amores e
desilusões; como acontece todo dia na vida de cada um de
nós.
Como
fez com aquela velha foto, aos poucos o tempo apaga os rastros das
pegadas que deixamos no passado.
Gerações
se sucedem, criando novas pegadas sobre aquelas que um dia foram nossas.
Sopram
os ventos das novas gerações, e a não
ser por um raro fato histórico, acabamos todos nivelados na
linha do horizonte do esquecimento.
Deixando
as considerações religiosas à parte;
tudo isso parece conduzir para um quadro desolador. Questionar se vale
a pena tantas lutas e sacrifícios.
Cada
um tem sua resposta. Cada resposta aponta para um caminho.
O mais
certo é que daqui a duas, ou três
gerações estejamos todos esquecidos. A
não ser por algum improvável estudo
genealógico, que acaso alguém se interesse por
fazer.
Nascemos
da mesma forma, com “adereços”
diferentes. Morremos igualmente com os mesmos
“adereços”, ou não.
Importa
o que somos e fazemos em nosso, mesmo curto, espaço presente
de tempo.
Há
pessoas que duram 100 anos e vivem como se nunca tivessem nascido.
Do que
vale, mesmo a mais linda das rosas, que floresce no caminho, se por ali
ninguém passa pra sentir o seu perfume, e fazer brilhar os
olhos das pessoas por sua beleza?
Toda
beleza e perfume só têm
função se percebidas; assim como só se
escreve um livro para que um dia possa ser lido.
Pouco
teria servido a existência da rosa, se algum tempo depois cai
ao chão de volta ao solo que antes foi.
Seu
maior sentido existe enquanto rosa, como nós enquanto vida.
Se
“exalamos o nosso perfume”, e colocamos brilho nos
olhos alheios, cumprimos bem a nossa parte.
Pode
parecer pequena, mas torna-se grande, quando somada a tantas outras.
O
tempo não para!
Quem
deixou de fazer pra ficar se lastimando pela vida; perdeu a chance de
somar e existir.
Talvez,
numa outra geração alguém conte a
nossa história, como se fossemos parte de um livro; tornando
possível saltar de uma página, ou uma foto
amarelada na parede e de alguma forma retomar a vida...