Carlos
Lucchesi

Quando eu era ainda bem menino,
gostava de rodear meu avô e ouvir suas histórias.
E eram tão sábias, que fazia isto sempre que o
visitava, naquela velha casa, no interior de Minas Gerais.
Sentávamos
a beira do fogão de lenha e, enquanto a lenha ardia no fogo,
ele fazia seu costumeiro cigarro de palha e começava a
narrar:...
-
"Certa vez, dois amigos estavam muito desanimados com as coisas da vida
e souberam que andava pelas redondezas um velho sábio, que
ninguém sabia sua origem. Assim, decidiram ir até
ele e ouvir os seus conselhos...
O
sábio os ouviu com atenção e,
após alguns momentos de reflexão, disse-lhes que
colocaria uma agulha naquela estrada de terra de quarenta
quilômetros no meio da mata, que começava logo ali
adiante, e que teriam a tarefa de encontrá-la. Saiu assim
para realizar o que havia proposto...
O
primeiro amigo era um homem sensato, com os pés no
chão e logo entendeu que seria uma tarefa
impossível de realizar e não pensou muito para
recusar a proposta do velho sábio; não
perderia seu precioso tempo à procura de uma agulha em lugar
tão remoto.
O
segundo homem, vendo a decisão do amigo, hesitou a
princípio, mas era um sonhador, duvidava do
impossível, acreditava nos seus sonhos e decidiu se por a
caminho em busca da tal agulha...
Procurou
por todo lado; perguntou as pessoas que passavam se haviam visto a tal
agulha e caminhou dias seguidos nesta busca...
Alguns
lhe ofereceram pousada, outros ajudaram a procurar, tomou o
café da manhã com muitos. Brincou de roda e
pique-esconde com algumas crianças que encontrou pelo
caminho e chegou mesmo a empinar o papagaio que o menino
tentava sem êxito.
Quando
a tarde caía, banhava-se nas cachoeiras que encontrava a
beira da estrada... E nada da agulha!...
Acordava
bem cedo, a tempo de ver o boiadeiro tanger o gado e andou na garupa de
um deles, que lhe ensinou a tocar o berrante e, neste caminho, gostava
de ouvir o som estridente do abrir das porteiras para passar a boiada.
Ouviu
o canto dos pássaros e conheceu alguns que jamais pensou que
existissem, de tanta beleza. Maravilhou-se com tudo que viu e descobriu
o prazer de viver. Contudo, chegou ao final da estrada, sem conseguir
encontrar a tal agulha, e retornou ao sábio para dar
notícia disso...
Surpreendeu-se
quando o sábio lhe disse que, na verdade, jamais havia
colocado agulha alguma no tal caminho e que, mais importante que as
coisas que buscamos, são as experiências que
vivemos, no caminho que percorremos para encontrá-las".
E,
concluiu meu avô que, o segundo amigo havia passado pela vida
e o primeiro, a vida havia passado por ele...Hoje, possso entender
melhor o verdadeiro significado das suas palavras!
Uma agulha no meio do caminho
