Ir
para casa era um desafio: Os olhos pregados em suas
anotações desviavam sua
atenção dos carros que passavam quase na mesma
velocidade que seus pensamentos. Volta e meia alguém
gritava: "Quer morrer seu doido?" Com sorte chegava em casa!
Lá, como na escola, não tinha muitos amigos.
Podia contá-los nos dedos de uma de suas mãos, e
ainda sobrariam alguns dedos acanhados. Poucos entendiam aquele menino
solitário que só "batia bola" com seus livros.
Seu
grande prazer era quando sua mãe lhe dizia: "Escreve menino
uma carta pra sua tia". O mundo das letras era estranho a seus pais ,
mal sabiam escrever seus nomes, e nestas horas, era o menino que pegava
lápis e papel, sentava-se em sua cadeira preferida e por
sobre a velha cômoda, suas pequenas letras pareciam bailar.
Que ninguém lhe chamasse nestes momentos; nem que fosse para
comer! Sequer ouvia. Ficava lá envolvido em seus pensamentos.
Tive a
sorte de ser um desses seus amigos contados nos dedos de uma das suas
mãos. Sempre fomos grandes amigos na infância.
Gostava dele pelo seu modo diferente de ser, e de ser capaz de falar
comigo até pelo olhar. Eu também não
era lá estas coisas que costumam chamar de "normal". Tinha
lá meus parafusos a menos!
O fato
é que nos tornamos grandes amigos e dos dedos de sua
mão, passei a fazer parte do seu
coração e ele do meu. Crescemos juntos, assim
como nossa amizade. Ficava impressionado como as meninas gostavam das
coisas que ele escrevia. Era admiração mesmo!
Éramos tão ligados que ficava triste nas suas
dores e me alegrava quando o via sorrir.
O
tempo passou e o menino se fez homem. O
coração do poeta batia mais forte, era
inevitável um amor no meio do caminho.
Ele
nunca quis me dizer o nome exato dela. A chamava de Ray. Só
sei dizer que aquele amor transformou o meu amigo. Ficava impressionado
com a forma que ele se referia a ela. Quase que eu mesmo me apaixonei,
só de ouvir ele falar dos seus olhos cor de mel, da forma do
seu caminhar e do brilho que tinha nos seus olhos. Meu amigo estava
mesmo apaixonado! Ótimo, pensei! Seriamos três
nessa nossa grande amizade. Foi engano meu, isso nunca aconteceu!
O
mesmo menino que eu vi crescer, de pegar o lápis na alegria
menina de escrever, parecia ter chegado em uma rua sem saída.
Depois
disso nos vimos poucas vezes. Creio que ele até me evitava.
Talvez vergonha do amor frustrado. Sei lá!...
Mudou-se
sem nem mesmo se despedir de mim. Escrevi-lhe pedindo que mandasse
notícias, e a carta voltou: "destinatário
não encontrado". Tempos depois, descobri que o poeta que
nunca deixou de ser menino morava aqui dentro de mim...