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Henrique
era mais um desses meninos de rua de história triste, que
encontramos por ai. Do passado, nem gostava de lembrar. Ainda muito
jovem, sua
mãe o deixou em um
orfanato e jamais voltou para buscar, sequer para visitá-lo.
Não tardou para
que fugisse para a rua e se juntasse a um grupo de pequenos
contraventores da
cidade.
Ao
final de cada tarde, como de costume, deitava-se em qualquer canto, de
uma
calçada
qualquer, a fim de passar as noites sempre frias. Era assim meses
seguidos e o
futuro era só uma palavra, que parecia não
existir.
Não
muito longe dali, Gustavo se preparava para deixar a sua empresa; a
maior da
região; um grande complexo industrial que crescia a ponto de
ter filiais em
todos os estados e até mesmo fora do pais.
Quando
o motorista parou naquele sinal de trânsito por alguns
segundos, Gustavo
avistou Henrique na calçada a poucos metros dali. Toda sua
trajetória de vida
lhe veio à cabeça: Filho único de
família rica herdara dos pais toda a fortuna
e negócios. Jamais conhecera qualquer dificuldade; sequer
conseguia imaginar
como era dormir na rua; muito menos a razão daquele jovem
rapaz estar passando a noite
na calçada.
Em
pouco tempo, triplicara a fortuna herdada, mas faltava-lhe tempo pra se
dedicar
em construir uma família.
O sinal abriu e o
motorista arrancou novamente com o carro, mas Gustavo
o fez
parar poucos metros depois. Naqueles sessenta segundos do sinal
fechado, passou
por sua cabeça a possibilidade daquele menino ser o filho
que não teve, e pediu
a seu motorista que o convidasse para seguir com eles.
Henrique
ainda dormia, quando o motorista o acordou. Meio assustado, finalmente
concordou, e daí por diante sua vida jamais seria a mesma.
Depois
de muitas conversas, Gustavo se empenhou em dar a Henrique tudo que
fosse
necessário, como se fosse seu próprio filho: Boas
escolas, mestres particulares
e professores de línguas; até mandá-lo
para o exterior, e o matricular em umas
das mais renomadas e conceituadas universidade do planeta.
Embora os
negócios ainda lhe tomasse todo tempo, Gustavo
não deixava de ir ter com
ele no exterior todo final de ano, e ficava impressionado com o
progresso de
Henrique. Tinha certeza que a sua intuição
não o enganara. Henrique caminhava
em passos largos e logo estaria em condições de
assumir os seus negócios, aos
quais ele dedicara toda sua vida.
No
natal seguinte, Gustavo não apareceu e Henrique fora avisado
de
que deveria
retornar ao Brasil com urgência, pois seu pai adotivo estava
à beira da morte.
Quando
chegou, o encontrou em uma UTI do hospital e mal conseguia falar. Seu
estado
era crítico, irreversível, diziam os
médicos; coubera a Henrique dividir com
ele aqueles seus últimos minutos de vida.
Ali,
deitado a sua frente, estava o homem que havia mudando a sua
história, e ele
nunca o havia perguntado a razão de ter acreditado nele. Uma
criança sem
futuro, um grão de areia no deserto. Abriu os olhos por
alguns segundos e antes
que Henrique pudesse dizer alguma coisa, murmurou:
-
“Apenas lhe mostrei os caminhos, Deus fez o resto”;
foram as suas últimas
palavras.
Deixou
em testamento todas as suas posses e direção das
empresas para o filho; contudo, Henrique herdara dele muito
mais
do que isso. Tornou-se
administrador exemplar, ampliou os negócios e ajudou a todos
que dividiram a
vida com seu pai adotivo, e a tantos outros mais.
Um
dia ordenou a seu piloto que preparasse o avião para viagem
e o carregasse com
as sementes que havia comprado.
-
Qual o destino senhor? Indagou o piloto.
-
“O deserto. Lançaremos as sementes no
deserto”.
-
“Senhor, desculpe a minha intromissão, mas
não seria melhor lançar as sementes
em terras férteis? De certo, lá elas
iriam vingar”.
“Um
dia, quando eu ainda era criança, não mais do
que areia dos desertos;
meu querido pai acreditou que de mim poderia brotar um homem, semeando
na minha
vida esperança de novos caminhos.
Bem
sei que o que faço agora é semear flores no
deserto. Sigo
aquelas mesmas palavras do meu pai de que Deus faz o resto...
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