

Carlos
Lucchesi
O Contador de Histórias
Zezé sempre foi mineiro
típico. Tocador de viola e exímio contador de
histórias. Contava seus "causos" como ninguém
sabia fazer, no interior de Minas Gerais.
Ao
cair daquela noite, nos reunimos na cozinha para ouvir um dos seus
muitos "causos". Naquele tempo, a luz da cidade de Carvalhos era
tão fraca que, a lâmpada acesa no meio da cozinha,
só servia mesmo de ponto de referência para os
pernilongos, que nos picavam a cada momento. A lenha queimando no
fogão, nos aquecia do enorme frio, ao mesmo tempo em que
iluminava ao nosso redor. Era o cenário perfeito para o
nosso Contador de Histórias...
A
vocação de Zezé para o discurso nasceu
cedo. Dizem que, na mesma época em que seus
irmãos Nilton e Flávio o apelidaram de
"Zé Roscão";
devido
ao fato de, ainda em criança, andar sempre com uma enorme
rosca em sua mão. Segundo tia Chiquinha, sua mãe,
ele adorava a rosca, mas detestava o tal apelido. Quem se atrevesse a
chamá-lo pelo tal nome, ficaria ouvindo seus resmungos o
resto do dia.
Naquela
noite, estávamos todos lá ao redor do
fogão, quando tia Chiquinha serviu o café, e pra
constrangimento de todos, acompanhado de rosca. Foi um tal de um olhar
pra cara do outro...Mas ninguém ousou repetir o indesejado
apelido, pra não atrapalhar o humor do nosso primo.
Queríamos todos ouvir suas histórias e
ninguém desejava aborrecê-lo de início.
Comemos a rosca, sem sequer tocar no nome.
Logo
após o café, Zezé colocou sua viola de
lado, sacou do bolso seu cigarro de palha, deu umas boas baforadas e
começou a contar:
Dizia
ele que, certa ocasião, um grupo de amigos reunidos num bar,
entre uma pinga e outra, contavam seus "causos de coragem". De tal
forma que, quando um disse que tinha ficado "cara a cara" com a "Mula
sem Cabeça", o outro, logo em seguida, afirmou que, ele
mesmo, teria sido o autor do corte da cabeça da "Mula". Como
não se chegava à conclusão de quem
seria o mais corajoso (tampouco mentiroso), foi lançado um
desafio: Um, entre eles, teria que ir à capela do
cemitério, e trazer de lá algum pertence guardado
de pessoa já falecida.
Zezé
se prontificou de imediato pra realizar tal ato de bravura.
Meia
noite em ponto, deixou o bar e saiu rumo ao cemitério,
enquanto seus amigos esperavam seu retorno trazendo o combinado.
Chegando
na capela, logo avistou alguns pertences, e se aproximou para pegar um
cinto pendurado na parede. Foi quando ouviu uma voz sussurrar no seu
ouvido: "Pega outro que esse é meuuuuuuu!"
Já
trêmulo e vacilante, tentou pegar um sapato logo ao lado, e
ouviu a mesma coisa. Antes que ouvisse pela terceira vez, pegou um
chapéu o mais rápido que conseguiu e saiu em
disparada. Correu tanto que, batia com os próprios
calcanhares no traseiro, enquanto ouvia passos, logo atrás
aos seus.
Sequer
parou ao se aproximar do tal bar, onde esperavam seus amigos. Ainda da
rua, lançou o chapéu sobre a mesa, onde estavam
todos reunidos e gritou: "O pertence ta ai; agora devolvam ao dono que
vem logo atrás!" E sumiu levantando poeira.
A esta
altura, não havia rosca alguma que lhe fizesse parar...
Não
ficou um só corajoso pra fazer a devida
devolução!
A
correria foi tanta que, teve gente, de tão desnorteada que
ficou, em vez de montar no cavalo pra fugir a galope; colocou o cavalo
nas costas e saiu galopando.
Alguns
que, na pressa esqueceram suas botas perderam a corrida para as mesmas
que, passaram por eles em maior velocidade...
Conta-se
na cidade de Carvalhos que, naquela noite ninguém pode
provar ser o mais corajoso, tampouco mentiroso. Contudo, daquele dia em
diante, Zezé ficou conhecido como o mais rápido
de todos...