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Um
escritor
está acostumado a criar muitas histórias, na
maioria das vezes são personagens
das suas próprias. Mas hoje eu lhes conto uma que ouvi
há anos passados e
guardei como exemplo de amor, afeição,
dedicação, generosidade. Qualidades
raras nesses nossos dias em que vivemos.
“Um
homem e seu filho tinham grande paixão pelas artes.
Participavam juntos de
exposições, trocavam idéias, e o gosto
pela arte parecia unir cada vez mais pai
e filho, tornando mútua a admiração
que um tinha pelo outro.
Essa
união foi interrompida, pois o filho foi convocado para os
campos de batalha,
numa guerra em que se envolvera seu país. Lutou bravamente,
mas infelizmente
não regressou. Morreu nos campos de batalha, usando seu
próprio corpo como
escudo para proteger um amigo; prestes a receber o impacto de um tiro
mortal.
Seu
pai sofreu profundamente com a notícia. Perdera mais que um
filho; perdera seu
único filho e sua motivação para
continuar a viver.
Trancou-se em casa e de lá não mais saiu,
até que um jovem bateu à porta da sua
casa, com uma pintura em tela nas mãos:
-
“O senhor não me conhece, mas eu sou o rapaz por
quem seu filho deu a vida.
Naquele mesmo dia ele salvou dezenas de outras pessoas, as tirando da
linha de
fogo do inimigo. Nas poucas vezes que conversamos, ele sempre falava do
senhor
e do gosto que ambos tinham pela arte. Estou aqui hoje para cumprir uma
promessa que fiz a mim mesmo naquela ocasião: de
retratar em tela a
imagem do seu filho. É a única forma que
encontrei para agradecer-lhe por ter
salvo a minha vida”.
O
pai abriu a tela e se emocionou com a imagem do seu filho querido. O
jovem
rapaz conseguira passar naquela pintura a generosidade; as
expressões
verdadeiras do filho. Foi como se por um momento ele estivesse de volta
pra
casa.
Com os olhos umedecidos pelas lágrimas agradeceu o presente
daquele jovem, e
colocou a pintura em lugar de destaque no meio da sua galeria de artes.
A
separação prematura do filho havia lhe atingido
profundamente; não resistiu à
tristeza, morrendo meses depois.
Deixou
em testamento a instrução para que todas as suas
posses e obras de arte fossem
à leilão; entre elas estava a tela do seu filho,
mas todos só pareciam
interessados nas obras dos grandes mestres.
Havia
em testamento a instrução para que o quadro do
filho fosse o primeiro a ser
leiloado, mas ninguém se interessou.
O
leiloeiro
insistiu:
-
“Alguém
oferece duzentos reais pela pintura “O Filho?”
Ninguém
levantou a voz e se fez um silêncio profundo.
-
“Cem Reais pelo quadro, quem oferece o lance?”
Um
velho homem, que trabalhava como jardineiro da casa estava presente e
ofereceu
dez reais pela pintura, único dinheiro que tinha em
mãos.
-“Quem
dá vinte reais?” Gritou o leiloeiro, antes que
batesse o martelo.
-
“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendida a
tela por dez reais ao velho
senhor”; finalizou o leiloeiro.
Correu
no salão uma satisfação e
alívio geral. Todos aguardavam ansiosos o momento de
comprar as obras dos grandes mestres.
-“Vamos
continuar o leilão”, gritou um senhor ilustres no
fundo do salão.
-“Sinto
muito senhores, o leilão está encerrado. Quando
fui chamado para fazer este
leilão havia um segredo estipulado no testamento do antigo
dono: somente a
pintura do filho seria leiloada; todas as outras pinturas e posses
ficariam com
aquele que comprasse a tela do seu filho.
Sendo
assim, o
homem que comprou “O Filho” fica com
tudo”.
Tem
gente que morre por dinheiro, e há outros que nem o
dinheiro, nem a morte
separam. |