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| Meu Quarto 3X4 |
| Como
todas as noites, eu estava ali no quarto, caminhando de um lado para o
outro, sem nem mesmo saber o porquê. Engraçado
como a gente faz isso sem perceber, quando os pensamentos viajam para
lugares distantes no tempo e no espaço. Era um quarto 3x4, e
não tinha muito aonde ir. Andava em círculos,
melhor dizendo; em "quadrados”, e por puro hábito
de fazer, não batia com a cabeça na parede no fim
de cada reta. Havia uma velha cama bem ali ao lado, e dizem os especialistas que é onde passamos a maior parte das nossas vidas. Entrava pela porta no mesmo horário de todos os dias. O relógio na cabeceira da cama não me deixava enganar. 20h00min em ponto eu chegava, e só tinha tempo mesmo de ligar a TV pra assistir o telejornal na tela de 14 polegadas. Na parede lateral uma grande janela 220 x 150, de onde eu via o nascer e o fim de cada dia. E a minha vida estava assim certinha, toda encaixotada sob medidas. A porta nunca foi uma saída. Quando o relógio despertava, já quase em cima da hora, eu me apressava no banho pra sair e trabalhar. O portão era o mesmo de sempre. Forçava com o pé direito a base e empurrava pra fora. Com a mão esquerda puxava pra dentro, enquanto que a direita virava a chave. Pronto! Abria. Pra fechar era só dar um empurrãozinho e ele batia barulhento bem atrás de mim. Estava atrasado e não tinha mesmo tempo para esperar. A vizinha em frente estava sempre lá lavando a calçada, como fazia todos as manhãs. “Que vida chata tinha a minha vizinha”. Pensei; enquanto ela pensava o mesmo de mim. O ponto do ônibus era como uma família reunida. De longe eu já conhecia as pessoas pelas roupas que usavam. Sandra e Vilma falavam dos novos amigos virtuais da noite anterior. Seu Antônio e dona Esmeralda comentavam das lindas netinhas. Tinha até aquele conquistador barato, de óculos escuros, que olhava pras meninas como se fossem um sorvete de morango. Eu pouco falava, e nunca estiquei qualquer assunto. Eram sempre os mesmos e sempre cortados, quando finalmente o ônibus se aproximava. Tinha enfim chegado ao trabalho. “Bom dia, como vai?”. E isso se repetia até o final do corredor. E não importava muito, porque ninguém nunca respondia. Como se a resposta fosse desnecessária. Vez em quando, murmuravam algumas coisas, que eu mal conseguia entender. Ligava o PC e a tecnologia automática abria a página do trabalho do dia anterior. Era só continuar de onde eu havia parado. Parada mesmo estava a minha vida! Toda noite era sempre a mesma rotina de volta para aquele quarto 3x4. Queria a insegurança, o desconhecido; sem portão com manias, sem as mesmas vizinhas lavando as calçadas, ou os mesmo assuntos do ponto de ônibus. Queria fazer diferente; dizer: “prazer em conhecer!”. Já estava cansado de não correr riscos. Mas como mudar? Tantos anos naquele quarto me fez acreditar que era o único lugar que existia. Deitei naquela noite tentando descobrir uma outra porta para abrir. |
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