Naquele início de
manhã, o banco daquela praça era meu
único companheiro; o amigo que não estava sentado
ao meu lado.
Era
com ele o meu diálogo, e ele me pareceu ser um bom ouvinte...
Esteve
sempre ali e nunca o tinha notado. Talvez o mesmo tivesse acontecido
comigo, no decorrer da minha vida.
Percebi
o olhar intrigado das pessoas que por ali passavam; como se me
perguntassem o que escrevia num banco de praça em plena
manhã.
Nem eu
mesmo saberia responder!
À
vontade de colocar no papel tudo que sentia naquele momento, crescia
tão forte como o nascer irreversível daquele dia.
Como o sopro leve e sereno
do
vento que anuncia uma grande tempestade. Que inquieta as folhas das
árvores e aumenta a cada instante. Joga os galhos de um lado
para o outro; a ponto de quase arrancá-los do
tronco.
E
quando finalmente ela chega, as mãos tornam-se lentas pra
colocar no papel frases quase ilegíveis, formadas por
letras, que se atropelam, como folhas que rolam pelo chão
nas tardes de outono.
A
caneta, entre os dedos, deslizava sobre as linhas, como se dela
não tivesse nenhum comando. Tampouco da narrativa, buscada
em um ponto qualquer das minhas lembranças.
Foi
por entre aquelas mesmas montanhas que meus olhos viram nascer os meus
primeiros raios do sol.
Muitas
foram às vezes que voltei àquela praça
pra observar o verde ao redor, ou as montanhas azuis, que pareciam
querer tocar o céu de tom azul ainda maior. Naquele dia,
estava lá pra tentar encontrar a mim mesmo, e aquele banco
solitário era a coisa mais parecida comigo em todo aquele
cenário.
Muitos
vinham e o rodeavam por algum tempo, mas quando a noite caia, voltava a
ser o mesmo banco numa praça deserta.
Talvez,
todo Poeta seja mesmo um pouco banco de praça: É
capaz de ser solitário no meio de muitos e tem o dom de ser
muitos quando solitário.
Sai
dali naquele fim de manhã de março pra continuar
sendo banco de praça nesta minha vida...
Carlos
Lucchesi
Lembranças De Um Banco
De Praça
