
Tio Odilon era mecânico
afamado na pequena cidade de Carvalhos, ao sul de Minas Gerais. Tia
Marly que me desculpe, mas suas grandes paixões eram mesmo a
pescaria de domingo, a cachaça do alambique e o velho Jeep
Willys, ano 1954.
Naquele
carnaval de 1998, levei um grupo de amigos para conhecer aquela cidade,
minha terra natal. Éramos onze ao todo, e
formavámos um bom time de futebol. Eu era o
capitão e goleiro do time, e sabia mesmo como agarrar!
Descobri esta vocação desde cedo, assim que
arrumei minha primeira namorada.
Na
quinta feira, depois do carnaval, embora já
estivéssemos bem cansados pelas farras dos quatro dias;
fomos desafiados, pelos rapazes do Muquém, cidade vizinha a
Carvalhos, para uma partida de futebol e aceitamos prontamente.
Só não nos demos conta de que
estávamos nos metendo numa enrascada daquelas...
Tio
Odilon logo se prontificou a nos levar no velho jipe, assim que
terminasse os reparos necessários. Concordei na hora, pois
chamar aquele caminho até o Muquém de estrada
seria o mesmo que confundir Monique Evans com Madre Tereza de
Calcutá.
Quando
cheguei com a turma para ir ao tal jogo, ele ainda dava as
últimas marteladas no motor pra ver se encaixava. Nem chave
tinha o danado! Teria que fazer pegar mesmo no tranco, mesmo
porque a bateria tava mais arriada do que calcinha em filme
pornô. Os pneus dianteiros estavam tão carecas
que, ele mesmo, batizou o da direita de "Ronaldinho" e o da esquerda de
"Roberto Carlos". Estranhei ao ver uma ratoeira armada no assoalho do
jipe. Segundo meu tio serviria para pegar alguns camundongos que se
escondiam nos buracos dos bancos, mas pelo tamanho dos buracos e do
queijo preso à ratoeira, suspeitei que ele havia economizado
no comprimento dos bichinhos.
Foi
difícil acomodar todo aquele pessoal no velho jipe.
Só o Zaias, negro forte de quase dois metros de
altura e centro-avante do time, ocupava metade da carroceria. Teve
gente que precisou ir com os pés pra
fora, e outros, mesmo com o traseiro.
Logo
que saimos da cidade o "Roberto Carlos" furou. Alguém
gritou: - "Pega o macaco!" Com tanta gente no jipe não havia
lugar nem pra camundongo, quanto mais pra macaco! Levantamos
o jipe no braço mesmo, enquanto tio Odilon trocava
o "Roberto Carlos" pelo "Mike Tyson": nome que nós mesmos
demos ao reserva, de tão careca que estava.
Quando
tudo parecia resolvido, logo à frente, a gasolina acabou.
Foi um desespero geral, mas tio Odilon, na sua sabedoria de
mecânico, mandou que pegássemos cana na beira da
estrada e torceu o caldo pra dentro do tanque...
E
não é que o danado pegou mesmo! Funcionou
tão bem que, alguns dos amigos que viajavam na parte
traseira, juraram que viram sair algumas rapaduras do cano de descarga.
Logo
veio a primeira subida e todo time teve que descer pra empurar o jipe
morro acima. Alguém gritou: -"Liga a
tração nas quatro rodas!" E quem disse que jipe
54 tem tração nas quatro rodas? Naquele tempo,
ter rodas já era considerado um grande avanço
tecnológico. Teve que subir mesmo na impulsão dos
onze calcanhares.
Na
descida seguinte, tio Odilon gritou: - "Desce pra segurar que o freio
não agüenta!" No total foram vinte subidas e vinte
descidas; sem contar com a que deixamos o jipe desembestar ladeira
abaixo de tão cansados que estávamos.
Zaias
logo gritou: - "Pisa no freio Odilon!" - "Ta querendo me gozar!",
respondeu meu tio. O freio era como cachorro vira-lata: só
ameaçava pegar.
O jipe
desceu com tanta velocidade que o velho chapéu do meu tio
foi acertar uma andorinha desavisada que passava logo acima. E,
enquanto o carro descia ladeira abaixo, todos vimos ratos enormes
pularem do banco pra fora do jipe e, os que ficaram, foram considerados
suicidas.
Tio
Odilon segurou-se firme no assento, mas como o assento não
estava seguro em coisa alguma, foi jogado pro lado do carona, enquanto
o volante girava mais solto e desgovernado do que bambolê em
cintura de criança.
Passou
com tamanha velocidade num buraco, que ninguém ficou sabendo
como ele foi parar no banco de trás.
Aos
seus sessenta e cinco anos de idade, achei que aquela seria sua
última viagem, mas o danado parecia ter sete vidas...
Chegamos
tão cansados ao local do jogo que, um
engraçadinho chamou Zaias de "capa do Zorro" e ele
não deu nem um tapa no sujeito.
O juiz
era do tipo caipira. Alternava na boca o apito e o cigarro de palha, e
era tão confuso que ora fumava o apito, ora apitava o fumo.
Ficou
combinado que, ganharia a partida, quem fizesse os doze primeiros gols,
e logo no primeiro minuto do jogo o juiz apitou um pênalti
contra nosso time. Alegou invasão da área do
adversário. Não nossa, do jipe, que havia
desembestado novamente e invadido o campo.
Como
capitão do time, incentivei: - Gente, vamos levantar a
cabeça! Foi ai que recebi uma bolada no lugar mais
temido numa partida de futebol, e pegou justamente na parte onde eu
tinha acabado de incentivar.
Confesso
que vi estrelas nesta hora, em pleno meio dia. A batida foi
tão forte que o "atingido", da ponta esquerda foi pra
direita, já pedindo substituição.
Pela
enorme pontaria, percebi que só poderia ter sido coisa do
batedor de pênalti do time adversário. Como
não sou de levar desaforo pra casa, fui tomar
satisfação e levei um tapa no pé da
orelha.
Alguém
gritou: - "Vai levar um tapa deste e ficar ai parado?" - Claro que
não! Respondi. Corri pra bem longe do sujeito, antes que
levasse o segundo.
Os
adversários eram tão maiores que eu, que um deles
me provocou: - "Ué, botaram o gandula pra pegar no gol?"
Deixei o dito pelo não dito, quando vi o mascote do time da
casa dar um pontapé no traseiro do Zaias, que, a esta
altura, já se arrastava em campo.
Pra
não alongar mais a conversa, basta dizer que com vinte
minutos de jogo, estávamos perdendo de dez a zero
e decidi deixar as duas últimas bolas passarem, pra acabar
logo com aquele massacre.
Joguei
a bola pra dentro da rede tão descaradamente que, em vez de
"frangueiro", a torcida já me chamava de "Zé
galinha".
Doze a
zero foi o placar final e estávamos tão exaustos
que nos esparramamos no campo. Mesmo assim, ainda tive
forças pra questionar tio Odilon: - Que a gente viesse pra
jogar, tudo bem que tava combinado, mas precisava trazer o jipe? ...E
ainda tinhamos que carregar ele de volta.
Mas
isso é assunto pra uma outra história...
Jeep Willys 54
A Odilon
Lucchesi

Carlos
Lucchesi