Carlos
Lucchesi
Nunca acreditei muito nas coisas
impossíveis. Sempre pensei que o impossível era
só aquilo que ninguém ainda tinha tentado fazer.
Já
havia desafiado as leis das probabilidades, quando vim ao mundo
sozinho, naquela velha casa do interior. Quando todos finalmente
chegaram, eu já estava lá, ainda ligado pelo
cordão umbilical, agarrado ao peito de minha mãe.
Talvez isso explique minha vocação para goleiro,
pois segurava a bola com a mesma determinação com
que fazia com os seios de minha mãe, naqueles primeiros
minutos de vida.
Aos
sete anos de idade, saia correndo nos intervalos dos jogos e
lá ia eu, de novo no peito de minha mãe. Mamar
até os sete anos era algo que parecia impossível.
Algum
tempo depois, veio a doença rara: Coréa; era
assim que o doutor a chamava. Tirou-me o controle dos
movimentos e parte da minha articulação. Tive que
parar com o futebol, pois caia no meio do jogo. Nem mesmo o doutor
acreditava na minha recuperação, tanto que
colocou a sua caneta de estimação da formatura
sobre a mesa e me desafiou a pegá-la.
- "Se
conseguir pegar, é sua" disse ele. Lutei contra a
doença por alguns segundos, até que finalmente
peguei a caneta prometida.
Curei-me
da doença e o doutor ficou sem a sua caneta de
estimação. (quem mandou me desafiar!)
Tinha
que mudar meus hábitos depois dessa idade e encontrar novos
desafios.
O
tic-tac do despertador era algo que me fascinava.. Parecia
impossível aquele barulho sair de dentro daquela caixinha.
Certo dia, me tranquei no quarto e comecei a desmontá-lo.
Só parei com o "toc-toc" do meu pai batendo na porta pronto
para me dar uma surra daquelas pela minha desvairada tentativa de ser
relojoeiro.
Como
castigo, me obrigou a montá-lo novamente, engrenagem por
engrenagem. Foi o melhor castigo que recebi na minha vida! Ficou quase
perfeito, não fosse pelo fato de despertar nas madrugadas e
acordar todos da casa.
Na
semana seguinte, foi meu pai quem resolveu desmontá-lo,
desta vez, usando a parede como chave de fenda. Ao final, o danado
parecia um rabo cortado de lagartixa tremendo no chão, mesmo
depois de estraçalhado.
Depois
disso, abandonei os consertos. Chegara minha idade para o
serviço militar. Para muitos, era impossível para
alguém franzinho como eu, ser escolhido para servir,
justamente no batalhão de cavalaria.
Mais
uma vez, contrariando o impossível, fui chamado. O sargento
justificou a sua escolha, pois segundo ele, meus olhos combinavam com a
cor verde da farda.
Logo
desconfiei de tão incomum motivo! Com aquela pose toda de
machão, quem diria...
Afora
isso, eu até teria servido, não fosse ter
encontrado uma barata no prato, de pernas pro ar, no primeiro dia do
rancho.
- "O
que você tem contra as baratas?", perguntou o sargento.
-
Nada, disse eu, desde que não fiquem tomando banho de sol no
meio do meu prato.
Depois
de uma enorme gargalhada, o tal sargento dispensou-me mesmo do
serviço militar. Disse que se não morresse em
alguma guerra, eu acabaria matando ele de tanto rir.
Logo
após, resolvi voltar a minha terra a passeio, e numa destas
típicas festas sertanejas, um amigo me desafiou a conseguir
um beijo da menina mais bonita da festa. Apostamos dez reais como eu
conseguiria. Paguei cinco a menina pelo beijo, e com os outros cinco,
comi muitos churrasquinhos.
Na
volta para casa, naquela estrada deserta e fechada pela mata, o carro
furou o último pneu que restava. Era impossível
chegar até a ajuda mais próxima com o pneu
furado. Juntamos todo mato que podiamos e colocamos socados pra dentro
do pneu. Funcionou por algum tempo, mas o mais engraçado foi
ficar vendo aquele rastro verde deixado pelo caminho. Quando chegamos
em casa, cansados e mortos de fome, pra espanto nosso o prato do dia
era justamente caldo verde.
Resolvemos
ir dormir sem a tal refeição.
Nada
tinha sido muito sério, mesmo aquela menina dos
cinco reais. Foi então que uma outra mulher aconteceu
na minha vida.
Prendi-me
a ela, mais forte do que como fiz à minha mãe nos
primeiros minutos de vida. Agarrei-me naquele amor com mais
determinação do que quando fazia como goleiro do
time de futebol. Passava as noites ouvindo o mesmo tic-tac do
despertador, com os pensamentos voltados pra ela.
Como
esquecer os poucos momentos que passamos, as palavras que
trocamos, os carinhos que tivemos, e os que queriamos ter? Como
esquecer do encontro marcado, e dos que sequer marcamos? Como esquecer
do primeiro beijo, e como esquecer de todos os outros desejos?
Só
ai eu fui saber que era mesmo IMPOSSÍVEL, menina Batista,
tentar, ao menos te esquecer...
Impossível

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