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Tudo começou de
uma forma
inexplicavelmente simples. Desastradamente, esbarrei no ombro dela,
nestes
caminhos da vida que percorremos por aí. E teria sido mais
um desses: “desculpe
senhora”; não fosse à visão
daqueles seus olhos tom de mel, que pareciam querer
mudar de cor, com o toque dos primeiros raios de sol daquela
manhã de verão.
Tremi,
confesso. Pela primeira
vez na minha vida estava diante de uma força maior, que eu,
na minha vaidade,
julgava ser só minha.
Pela primeira vez faltaram as
palavras, e eu não sabia o que dizer. Perdi ali o comando
elementar de me mover
em qualquer outra direção, que não
fosse ao encontro dos olhos dela.
Literalmente
eu estava
enfeitiçado, e ela parecia saber.
O
ônibus veio. As pessoas
passavam como vultos, entre aqueles olhares em fogo. Finalmente
alguém empurrou
me desequilibrando na calçada, e a perdi de vista.
Quase
não dormi naquela noite. Só
passava pela minha cabeça a possibilidade de voltar
àquele
mesmo local, e vê-la
novamente.
Nem bem
amanheceu o dia e eu
estava lá, no mesmo ponto de ônibus, ao lado da
banca de jornal, esperando
passar o tempo nas notícias do dia.
-
“Lembro do senhor”, disse o
jornaleiro.
-
Sim, estive aqui ontem, e quase
levei uma queda na calçada.
-
“Claro, lembro desse fato, e
observei os olhares que o senhor trocava com aquela senhora”.
- Acaso
a conhece? Perguntei.
-
“De vista, mas sinto ser eu a
dar-lhe essa notícia: todo dia o marido a deixa aqui de
carro, nesse mesmo ponto
de ônibus e segue o seu caminho.
-
Casada então?
-
“Sem dúvida que sim; a aliança
no dedo não deixa nenhuma dúvida sobre
isso”.
Quase
desequilibrei novamente com
aquela revelação. Senti vontade de ir embora, mas
quando me
virei, um carro parou
ao lado e ela desceu, como o jornaleiro havia descrito.
Quando
ele se foi, impulsivamente
eu a segui no meio da multidão. Caminhava em passos largos,
como se tivesse
pressa para chegar. Duas quadras depois o seu celular tocou, e logo se
aproximou um desses rapazes de corpo atlético, bem mais
jovem do que ela, e
se entrelaçaram nas trocas de beijos e abraços,
bem no meio da rua.
Só
ali eu me dei conta de que
havia me apaixonado por uma mulher de muitos homens.
Podia
ter sido mais um caso na
vida dela, mas tive a dignidade pra não ser. Podia fingir
não
saber dos outros, mas sabia
que seria incapaz de conviver com essa mentira. Podia
esquecê-la, mas jamais consegui.
Quase
oito anos se passaram e por nenhuma outra senti a mesma coisa. Foi
difícil viver todo esse tempo sabendo onde ela estava, e
não
poder ir ao seu encontro.
Hoje
é dia dos namorados. Lá fora, casais sorridentes
trocam presentes, entre beijos e abraços. E eu aqui
mesmo sem poder
queria. Só queria tê-la comigo, e ela nem ao menos
sabe que eu existo...
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