
...Depois
de uma semana inteira de
trabalho, eu estava pronto pra recostar na minha rede e ver o tempo
passar,
quando meu amigo Paulinho chegou apressado. Não é
que ele tinha decidido se
mudar, justamente naquela tarde preguiçosa de
sábado!
Pensei: - Pronto, lá se foi o meu descanso!
E foi o que aconteceu. Pulei na carroceria do velho caminhão
e partimos rumo a
sua nova casa. Tinha que ajudar meu velho amigo naquela hora de
precisão!
Seu novo endereço era um local de nome "Caminho das Pedras".
E do
jeito que o caminhão pulava por aquelas estradas, o tal nome
caiu como luva
naquele lugar.
Levamos tanto tempo pra chegar ao nosso destino, que em vez de bairro,
cheguei
a pensar que ele tinha decidido mudar de país. Contudo,
Paulinho me garantiu,
que ficava lá pelas "bandas" de Jacarepaguá.
O local era tão ermo, que nem telefone tinha chegado por
lá e o celular
só pegava, se subisse numa montanha que ficava nos fundos da
casa. Coisa que
não me atrevi a fazer, pois não tinha levado
nenhum equipamento de alpinista.
Melhor nem falar sobre minha noite de conflitos com as
muriçocas e maribondos
que não me deixaram "pregar os olhos".
No dia seguinte, decidi voltar. Fiquei duas horas esperando
por um ônibus
que só passava duas vezes ao dia: uma de ida e outra de
volta. Quando
finalmente apareceu, deu pra saber a um quilômetro de
distância, de tanto
barulho e fumaça que deixava pelo caminho.
Fiquei um pouco desanimado, mas logo meu sorriso se abriu ao ver
escrito no
pára-brisa direito a seguinte frase: "Promosão: 1
real!"
Por um real, eu fiz de conta que não notei aquele erro de
ortografia; tampouco
fiz caso do vidro quebrado do pára-brisa.
- Seja o que Deus quiser! Pensei...
Duas horas depois, eu ainda rodava naquele velho ônibus, sem
ter a mínima idéia
de onde eu estava.
Passou por uma rua tão estreita, que os passageiros tiveram
que passar todos
para o lado direito do carro, pra ver se cabia no caminho. E pra piorar
a
coisa; não é que veio um outro ônibus
no sentido contrário!...
"634 Pau da Fome". Era o que estava escrito no letreiro de destino.
Já tinha ouvido falar de lugares de nomes estranhos: "Sovaco
da
Cobra", "Rato Molhado", Espinhela de Gato", mas "Pau
da Fome, superou a minha imaginação.
Se eu morasse num desses lugares de nomes exóticos;
preencheria os formulários
como "morador de rua", só pra não ter que passar
por tamanho vexame.
Depois de duas horas naquilo que eles apropriadamente chamavam de
"lotação", não dava pra ficar sem
comer nada. Pra sorte de todos;
entrou no nosso ônibus, um desses meninos que vendem doces e
anunciou:
- "Desculpem senhores passageiros por incomodar a sua viagem, mas trago
aqui os deliciosos bombons garoto na promoção de
Três por um real. E quem levar
seis, ganha um no prazo de validade!"
Minha fome passou na mesma hora!
Já estava quase escurecendo quando começou a
chover, e uma senhora que estava
logo atrás de mim gritou: - "Fecha o vidro da janela
moço!" -
Fechava, se tivesse, respondi!
O vento que entrava pelo pára-brisa quebrado era
tão forte que faria inveja a
qualquer um desses ônibus chamados de "frescão!"
Como nunca parecia chegar ao meu destino, indaguei ao motorista: - Esse
ônibus
vai ou não vai pra Madureira?
Pelo sorrisinho de deboche que ele deu, nem precisava responder.
Contudo,
resmungou: -"Se vai, esqueceram de me avisar!"
Foi o limite pra mim! Decidi saltar ali mesmo e pegar qualquer coisa
que se
movesse pra chegar em casa.
Com um pouco de sorte, poderia passar uma dessas kombis de transporte
alternativo.
E foi o que aconteceu...
Uma hora depois apareceu a tal kombi. Mas
eu já estava decidido: se tivesse a tal
"promosão" de um real;
acabaria de chegar a pé mesmo em casa!
Um real e noventa centavos era o preço da passagem. Foi
à primeira vez na minha
vida que fiquei alegre por não pagar uma
promoção...
Por volta de meia noite, enfim cheguei em casa e fui direto pra cama,
de tão
cansado que estava.
Dias depois, Paulinho apareceu novamente no meu portão, me
perguntando se
deveria trocar os pisos da sua nova casa.
Com a desgastante experiência que tive naquele dia; o
aconselhei, em vez do
piso, trocar de casa!

