
Carlos
Lucchesi
A Vida pela Janela
...24 de Junho de 2007;
três meses exatos para o meu aniversário. Pensava
nisso, naquela manhã típica dos dias de inverno,
quando meu grande amigo "Cacá" me ligou convidando pra tomar
o café da manhã com ele naquele dia.
Marcamos
para as oito horas, e eu precisava me apressar, pois da minha casa pra
Copacabana era quase uma viagem.
Dia de
domingo não tem nada no centro da cidade. Só
prédios vazios e ruas desertas.
Cheguei
as oito em ponto, como combinado. Tomamos nosso café e
conversamos longamente.
Lembrei
que certa vez; ele havia me dito que jamais se casaria, pois
não conseguia se apaixonar por ninguém. Apenas
namoros sem grandes expectativas, ou compromissos.
Naquela
ocasião; disse-lhe que, quando encontrasse a pessoa certa,
teria certeza dos seus sentimentos e saberia reconhecer os sinais do
amor.
Hoje,
ele estava ali comigo, e no quarto ao lado; sua esposa e filho, ainda
dormindo. Contou-me que ela estava grávida de cinco meses de
uma menina, que deveria chamar-se Gabriela. Fiquei feliz por ele ter,
finalmente encontrado o amor tão desejado...
Na
volta pra casa; me fez companhia até o ponto do
ônibus, que não tardou. Peguei um desses "micro
ônibus". O ar condicionado me pareceu
desnecessário em manhã ainda tão fria.
Além
de mim, só o motorista com cara de final de festa. Dirigia
tão devagar, que eu podia acompanhar, pela janela, todo
movimento lá fora.
Algumas
pessoas faziam caminhadas pela orla. Alguns jogavam bola na areia, ou
pedalavam bicicletas. E eu não era nenhum deles. Via a vida
passar pela janela diante dos meus olhos; como sempre foi. Tinha plena
consciência disso.
Encostei
o rosto bem próximo ao vidro da janela, onde a neblina forte
formava gotas de água, que deslizavam e mudavam de
posição com o sopro do vento.
Talvez
fosse um dia perfeito pra dormir; e eu estava mesmo sonolento, quando
passamos pela "Marina da Glória". Um cenário com
toque de poesia, que fez a luz nos meus olhos despertar novamente.
Barcos
espalhados por todos os lados, em movimentos sobre as ondas suaves da
enseada. Mesmo com a neblina, que resistia ao nascer do sol; o brilho
da luz nas águas do mar lembrava reflexos num espelho.
Podia
ouvir o som das águas batendo nas pedras bem
próximo ao asfalto; criando ondas de espuma, que
se desfaziam como magia.
Talvez,
em cada barco, uma história de amor. Talvez cada amor fosse
o maior de todos, ou todos não fosse o maior amor.
Eu
podia saltar ali mesmo e caminhar com aquelas pessoas na beira da
praia, ou correr atrás da bola, como faziam aqueles jovens,
naquele início de manhã.
Podia
juntar-me a eles e fazer parte do cenário. Em vez disso;
assistia tudo, como se fosse um filme.
As
gotas de água ainda deslizavam pela janela, quando senti
presença forte ali bem ao meu lado, olhando na mesma
direção.
Tão
suave quanto o bater da espuma nas pedras; ouvi sussurrar no meu
ouvido: -"Como a neblina no horizonte, os barcos
dançantes nas ondas do mar, e o verde espelho das
águas; somos parte de tudo isso".
Olhei
novamente contra o vidro da janela, mas só podia ver meu
próprio reflexo entre as gotas de água, que ainda
se formavam do lado de fora.
Só
ai fui perceber, que voltou a conviver comigo o poeta, que eu
acreditava um dia ter perdido...
