688
Paradouro

Carlos
Lucchesi
Segunda-feira é um dia
complicado; ninguém tem dúvida disso! Talvez o
mais sensato fosse começar a semana numa terça,
pra não cruzar com tantos rostos mal-humorados...
Era
assim que eu estava naquela segunda-feira, na volta do trabalho,
sentado no primeiro banco do ônibus 688 Méier /
Pavuna - Paradouro.
Estava
tão cansado pelas farras do final de semana, que
quando aquela velhinha passou pela roleta logo a minha frente, fingi
estar dormindo, só pra não ter que levantar e
ceder o meu lugar.
Assim
continuei, até que um vendedor de bugigangas do Paraguai me
acertou uma panelada na altura do joelho. E por sorte, não
foi pouco mais acima, pois com certeza, meu mal-humor aumentaria, e em
vez do Paraguai,
teria
mandado ele para os quintos.
No
ponto seguinte, o motorista freiou com tanta brutalidade que decidi
mandá-lo para o referido lugar, na frente do
paneleiro.
-
"Barbeiro", gritaram todos...Que nada! Logo entendi o motivo do
descontrole do motorista. Eu devia mesmo estar dormindo e sonhando! Foi
o que pensei ao ver aquela mulher maravilhosa subir os degraus do
ônibus. Foi ali que entendi o verdadeiro conceito de "Mulher
Avião": Todo mundo foi às nuvens... Era um
avião, dentro de um lotação!
Até as comadres fofoqueiras silenciaram.
Difícil
descrever aquela mulher! Corri os olhos da ponta dos seus
pés até os fios dos seus cabelos dourados, e que
cabelos! Pareciam os movimentos das ondas do mar. Os olhos, nossa!
Verdes, sensuais, meio orientais, inexplicável mesmo; coisa
de hipnotizar até o Mandrake. Os lábios,
vermelhos feito morangos e de uma sensualidade provocante...
Um
vestido tão justo que fosse eu pintor de nudez, nem
precisaria que ela tirasse a roupa!... Tudo aquilo em uma só
mulher!
Era um
verdadeiro tesouro na linha 688 Méier / Pavuna - Paradouro.
Quando
ela passou pela roleta, pensei: Isso é mulher pra muitas
roletadas! Mesmo com todo cansaço que eu estava,
não podia deixar aquele monumento de mulher de pé
ali ao meu lado...
- Quer
sentar, arrisquei!
-
"Obrigada", disse ela, e sentou...
Mas
não foi uma sentadinha qualquer, não senhor!
Sentou-se com o mesmo destaque e presença com que
o Queen Elizabeth atraca num porto.
Quando
ela cruzou as pernas, teve gente que ia descer no meio do caminho e
deixou para saltar no ponto final.
O 688
seguia, e eu também, com os olhos pregados naquela mulher.
Ela
podia saltar a qualquer momento e eu tinha que arriscar uma investida
qualquer; nem que fosse uma velha cantada. Já teria feito,
não fosse esta minha incorrigível timidez. Mesmo
assim, arrisquei:
-
Tá quente hoje, né? ( a minha
reputação foi para o espaço depois
dessa cantada!) Ela apenas
balançou a cabeça, sem dizer nenhuma palavra.
Quando
o motorista freiou bruscamente e tombei levemente sobre ela, quase que
me arrependi de ter mandado ele para os quintos, na vez anterior.
Que
pele macia! Sem falar no perfume, que me fazia esquecer os odores
contrários quem vinham de outros passageiros,
Ficava
torcendo para o motorista dirigir devagar só pra ter mais
tempo de reiniciar o diálogo... Tinha que me decidir, pois a
qualquer momento ela saltaria e a linha 688 ficaria sem aquele
monumento.
Para
minha tristeza, foi o que aconteceu: Dois pontos após, ela
puxou o sinal e para desespero de todos, desceu. Sentei no mesmo lugar,
ainda quente pelo calor do seu corpo. Não podia ter deixado
que ela se fosse assim...
Quando
de tristeza baixei a cabeça, notei que naquele banco que eu
cedi o lugar, ela havia deixado escrito o número do seu
celular.
Já
teria ligado, não fosse essa minha incorrigível e
inexplicável timidez...
